Os Navegantes do Arquipélago: O Sítio Arqueológico da Ilha de Santana e as Raízes Milenares de Macaé
- Cleber de Moraes

- há 14 horas
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Por ocasião do resgate da memória e do patrimônio pré-colonial da costa fluminense.
Prólogo: O Tempo Anterior às Cartas Náuticas
Quando o navegador português Gonçalo Coelho avistou as águas da foz do Rio Macaé no início do século XVI, a terra já respirava uma longa e sofisticada história humana. Muito antes das feitorias, dos aldeamentos jesuíticos e da consolidação do município que viria a se erguer entre o mar e a serra, navegantes experientes dominavam as correntes costeiras do Norte Fluminense.
A cerca de dez quilômetros do continente, erguendo-se como sentinela de pedra no oceano, o Arquipélago de Santana guarda sob a sua cobertura de restinga e mata atlântica insular um dos testemunhos mais instigantes dessa ocupação: o Sítio Arqueológico da Ilha de Santana (IPHAN RJ00124).
Trata-se de um patrimônio que desafia a visão simplista do homem pré-cabralino e revela comunidades de pescadores-coletores com notável capacidade técnica, adaptabilidade ambiental e audácia marítima.

1. O Cenário Insular: O Arquipélago de Santana
Composto pela Ilha de Santana, Ilha do Francês e pelo Ilhote Sul, o arquipélago sempre foi um ponto geográfico nevrálgico na Bacia de Campos. Seu relevo escarpado, com costões rochosos e enseadas abrigadas, cria um microambiente marinho de altíssima produtividade biológica, impulsionado pelas correntes oceânicas ricas em nutrientes.
O sítio arqueológico ocupa uma plataforma em declive suave na Ilha de Santana, cobrindo uma área estimada de 500 m². Inserido hoje em uma unidade de conservação municipal (Lei nº 1.216/1989) e sob a tutela de controle territorial da Marinha do Brasil, o local preservou-se em grande parte graças ao seu isolamento geográfico e institucional.
2. A Descoberta: O Encontro do Passado com a Modernidade (1980–1981)
A revelação do sítio ocorreu no auge da interiorização e expansão da infraestrutura petrolífera na cidade. Entre os anos de 1980 e 1981, operários e máquinas da Petrobras realizavam obras de terraplanagem para a abertura de uma via de acesso à torre de telecomunicações no topo da ilha. Ao revolver o solo, o maquinário expôs uma camada escura, rica em conchas, ossos e carvões, atípica para a formação geológica natural do terreno.
Notificado o achado, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) efetuou o registro oficial no Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos (CNSA) em 23 de novembro de 1981, tombando a jazida como patrimônio da União sob o código RJ00124.
As pesquisas arqueológicas subsequentes foram confiadas à equipe da eminente arqueóloga Dra. Tânia Andrade Lima, vinculada ao Departamento de Antropologia do Museu Nacional / Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma das maiores referências continentais em zooarqueologia.
3. A Cronologia e a Estratigrafia da Ocupação
As análises físico-químicas e a datação por radiocarbono (Carbono-14) fixaram a presença humana no local em cerca de 1.260 anos antes do presente (com margem de mais ou menos 330 anos).
Isso situa o apogeu da ocupação da Ilha de Santana entre os séculos VII e XI da Era Comum — época em que a Europa vivenciava a Idade Média e o Império Bizantino florescia, enquanto no litoral macaense prosperava uma sociedade integrada ao ecossistema marinho.
O Perfil Estratigráfico
As escavações estratigráficas revelaram dois níveis deposicionais principais:
Camada Superior: Solo escuro, rico em matéria orgânica decomposta, cinzas de fogueiras e fragmentos de espinhas de peixes trituradas, indicando fases de reocupação e atividades de descarte contínuo.
Camada Basal: Depósito conchífero mais denso, assentado diretamente sobre o substrato geológico original da ilha, contendo estruturas de fogueiras circundadas por blocos rochosos e concentrações de artefatos ósseos e líticos.
4. O Cardápio Pré-Colonial: Zooarqueologia e Paleodieta
Os estudos faunísticos conduzidos no Museu Nacional desvendaram com precisão cirúrgica o regime alimentar e as práticas extrativas desses povos:
[ Matriz Alimentar da Ilha de Santana ]
├── Ictiofauna (Peixes) ~ 80% do volume proteico
│ ├── Fundo e Costão: Garoupas, Budiões, Badejos, Sargos
│ └── Pelágicos (Mar Aberto): Enxovas, Cações, Raias
├── Invertebrados Marinhos
│ ├── Equinodermos: Ouriço-do-mar (Echinometra lucunter)
│ └── Malacofauna: Mexilhões, Ostras, Gastrópodes de costão
└── Vertebrados Terrestres e Voadores
├── Aves Marinhas: Atobás, Fragatas, Gaivotas
└── Répteis: Tartarugas marinhas (Cheloniidae)

A expressiva abundância de carapaças e espinhos de ouriços-do-mar demonstra um aproveitamento sistemático dos recursos das zonas entremarés nas enseadas rochosas.
A captura de peixes pelágicos de grande porte, como cações e enxovas, atesta o domínio de técnicas especializadas de pesca em águas profundas, envolvendo linhas de fibras vegetais com anzóis de osso e concha, além do emprego de arpoamento.
5. Tecnologia e Cultura Material
A cultura material recuperada reflete uma tecnologia engenhosa, voltada para o máximo rendimento com as matérias-primas disponíveis:
Indústria Óssea: Furadores, agulhas e pontas de projétil confeccionados com ossos longos de aves marinhas e espinhas dorsais de peixes de grande porte.
Indústria Lítica: Batedores, quebra-cocos e raspadores lascados em quartzo e diabásio, utilizados principalmente para fraturar carapaças de moluscos e processar carnes e fibras.
Navegação Costeira: A travessia frequente do braço de mar de 10 km que separa o continente da ilha exigia pirogas monóxilas (canoas esculpidas em troncos maciços) perfeitamente equilibradas, além de um saber empírico aprofundado sobre o regime das marés, ventos de quadrante sul e leste e correntes marinhas da costa macaense.
6. Sazonalidade: Um Posto Avançado no Oceano
Uma das conclusões centrais da arqueologia contemporânea é que a Ilha de Santana não funcionava necessariamente como uma aldeia de habitação permanente de longo prazo, mas sim como um acampamento logístico e sazonal de alta especialização.
Grupos estabelecidos no litoral continental — nas proximidades da Lagoa de Imboassica, foz do Rio Macaé ou restingas de Jurubatiba — deslocavam-se periodicamente até o arquipélago durante épocas de migração de cardumes e desova de aves marinhas. No arquipélago, processavam e defumavam o pescado nas fogueiras estruturadas, transportando o excedente de volta ao continente.
7. Preservação, Identidade e o Papel da Academia
O Sítio da Ilha de Santana representa a certidão de nascimento da presença humana em Macaé. Ele nos recorda que a vocação marítima deste município não começou com os engenhos oitocentistas, nem com o porto comercial da cana e da madeira, tampouco com a exploração de petróleo e gás: ela é milenar.
Parâmetro | Dados Oficiais de Síntese |
Denominação | Sítio Arqueológico da Ilha de Santana |
Código IPHAN | RJ00124 |
Localização | Arquipélago de Santana, Macaé - RJ |
Datação | 1.260 ± 330 anos AP (Antes do Presente) |
Tipologia | Acampamento costeiro / Depósito conchífero |
Pesquisa Referencial | Dra. Tânia Andrade Lima (Museu Nacional/UFRJ) |
Regime de Proteção | APA Municipal (Lei 1.216/1989) / Patrimônio da União (IPHAN) |
Uma viagem no tempo ao cotidiano dos povos pré-coloniais da Ilha de Santana:
Preservar a memória do Sítio RJ00124 é uma missão essencial para as letras, as ciências humanas e a historiografia macaense. Compreender os passos daqueles que primeiro navegaram nossas enseadas e contemplaram a silhueta da Serra da Macaé a partir do mar aberto é o mais nobre exercício de reconhecimento da nossa própria identidade.
E Por que os sambaquieiros Sumiram?
Os sambaquieiros não sofreram uma "extinção em massa" misteriosa, mas foram gradualmente absorvidos, deslocados e substituídos por transformações históricas no litoral brasileiro entre os anos 800 d.C. e 1500 d.C.:
A Expansão Tupi-Guarani (Pressão Demográfica): Por volta do início do segundo milênio, grandes levas de povos de tronco linguístico Tupi desceram os rios e ocuparam a faixa litorânea do Sudeste. Os Tupis possuíam agricultura desenvolvida (mandioca, milho), cerâmica sofisticada e uma densidade populacional muito superior à dos pescadores-coletores tradicionais.
Assimilação Cultural e Conflitos: Ao entrarem em contato, os antigos construtores de sambaquis foram em parte assimilados culturalmente (casamentos, trocas, adoção da cerâmica e agricultura) e em parte empurrados para o interior ou eliminados em disputas territoriais.
Transformação do Modo de Vida: O perfil nômade e estritamente pescador-coletor tornou-se inviável diante do domínio territorial de grandes aldeias ceramistas e agricultoras que passaram a controlar as praias e estuários do Rio de Janeiro.
Impacto Colonial Final: Quando os europeus chegaram no século XVI, os grupos que habitavam a costa de Macaé e o entorno da Bacia de Campos já eram etnias consolidadas desse período pós-sambaqui (como os Tupinambás no litoral e grupos macro-jê como os Goytacazes na foz do Rio Paraíba do Sul).
Fontes e Comprovações Oficiais
Pesquisa Documental e Curadoria Digital: Cleber de Moraes
Membro/Pesquisador independente dedicado ao resgate histórico, arqueológico e patrimonial do litoral norte fluminense.
Metodologia e Levantamento Digital
Mapeamento e Fichamento Institucional: Localização e validação dos registros do sítio arqueológico junto ao Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos (CNSA/IPHAN — Código RJ00124) e legislações municipais de preservação (Lei nº 1.216/1989).
Curadoria Zooarqueológica e Científica: Sistematização dos estudos acadêmicos e relatórios faunísticos publicados pela Dra. Tânia Andrade Lima (Museu Nacional/UFRJ), com foco na paleodieta e na tecnologia lítica/óssea pré-colonial.
Articulação Historiográfica: Organização da linha temporal, contextualização da navegação pré-cabralina no Arquipélago de Santana e adaptação documental para publicação institucional junto à Academia Macaense de Letras.
Fontes e Comprovações Oficiais do Sítio da Ilha de Santana
Histórico da Descoberta e Acervo do Museu Nacional: Prefeitura Municipal de Macaé
Artigo Científico Original (Datação 1.260 AP e Paleodieta): Revista de Arqueologia — SAB
Legislação e Criação da APA Municipal: Lei nº 1.216/1989 — PDF Oficial
Ficha Cadastral e Registro Georreferenciado: Base de Sítios Arqueológicos do Brasil
Comprovações Historiográficas, Antropológicas e Genéticas Regionais
DNA Antigo e Transição Populacional no Litoral Sudeste: Nature Ecology & Evolution (Ferraz et al., 2023) (Evidência genômica regional da substituição e incorporação das populações sambaquieiras por grupos posteriores).
Ocupação Pré-Colonial e Dieta Costeira Fluminense: Revista USP (Dra. Tânia Andrade Lima) (Síntese ecológica da subsistência e do ambiente dos pescadores-coletores).
Expansão Tupi e Transição Cerâmica no Sudeste: Revista do MAE/USP (Registros sobre a dispersão dos grupos horticultores e ceramistas no litoral fluminense).
Etno-história dos Povos do Norte Fluminense (Goytacazes e Tupinambás): Biblioteca Digital Curt Nimuendajú (Cunha, 1992) (Mapeamento das etnias e do contato quinhentista na Bacia de Campos e foz do Rio Paraíba do Sul).

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