Dos relatos do século XVI aos escritores que transformaram a cidade em literatura: A história literária de Macaé
Atualizado: 14 de set.
Muito antes da criação da Academia Macaense de Letras, Macaé já existia nas páginas dos livros. Sua paisagem, seus rios, seus caminhos e seus habitantes começaram a surgir em relatos produzidos ainda no século XVI. Com o passar dos séculos, porém, a cidade deixou de ser apenas objeto do olhar de viajantes. Macaé passou a escrever sobre si mesma.
Nasceram jornais. Surgiram poetas, cronistas, memorialistas e romancistas. Algumas dessas vozes permaneceram ligadas à vida local. Outras atravessaram as fronteiras da cidade e conquistaram leitores em todo o Brasil.

Conhecer os primeiros capítulos dessa história é compreender que a Academia Macaense de Letras, fundada em 1963, não surgiu de maneira isolada. Ela é herdeira de uma tradição escrita muito mais antiga.
1557: quando Macaé começa a aparecer nos livros
O mais antigo registro escrito localizado nas fontes históricas municipais remonta a 1557. Naquele ano, o frade e viajante francês André Thevet publicou As Singularidades da França Antártica, obra na qual relata seu desembarque na barra do então chamado Rio Maqué e seu contato com os povos indígenas da região.
É um documento precioso porque foi produzido séculos antes da formação da cidade de Macaé tal como a conhecemos. Pouco depois, outro viajante francês colocaria novamente a região nas páginas de um livro.
Em 1578, Jean de Léry publicou História de uma viagem feita à terra do Brasil, também dita América. A obra contém referência ao nome Macaé e observações sobre a região. Thevet e Léry não eram escritores macaenses. Representam uma fase anterior. São homens que escreveram sobre Macaé, antes que Macaé começasse a produzir sistematicamente os seus próprios escritores.
Um território começa a escrever a própria história
No século XIX, a produção escrita sobre o Norte Fluminense se amplia. Entre os nomes dessa passagem encontra-se José Carneiro da Silva, o Visconde de Araruama, nascido em Quissamã em 1788. Em 1819, publicou Memória topográfica e histórica sobre os Campos dos Goytacazes. Em 1836, dedicou outro estudo à abertura de um canal que facilitasse a comunicação entre Campos e a vila de São João de Macaé.
Sua obra pertence ao campo das memórias, dos estudos territoriais e da literatura informativa. Ainda não estamos diante de uma literatura macaense organizada, mas já existe uma região registrando sua própria geografia, economia, história e sociedade.
1861: Macaé ganha uma imprensa literária
O aparecimento da imprensa local é um dos grandes marcos dessa história. Pesquisadores do Solar dos Mellos localizaram um exemplar de O Macahense, periódico que se apresentava como “literário, agrícola e comercial”. A edição encontrada, de número 42, é datada de 24 de novembro de 1861. O achado levou pesquisadores municipais a considerá-lo possivelmente o mais antigo jornal de Macaé atualmente conhecido.
A partir desse momento, as letras encontraram um espaço permanente de circulação. Notícias conviviam com artigos, opiniões, poesia, crônicas e textos culturais. Outros periódicos surgiriam e ajudariam a formar uma sociedade cada vez mais acostumada à palavra impressa. É neste ambiente que começamos a encontrar os primeiros rastros de uma produção literária propriamente local.
Os versos de 1869
Quando o telégrafo foi inaugurado em Macaé, em 29 de julho de 1869, a chegada da nova tecnologia foi celebrada também por meio da poesia. Godofredo Tinoco recuperaria posteriormente poemas atribuídos a Nicolau Viana e Pereira Roças produzidos naquela ocasião. Não seria prudente chamá-los, sem novos documentos, de primeiros poetas da cidade. São, entretanto, duas das mais antigas vozes poéticas relacionadas à vida pública macaense que chegaram ao nosso conhecimento.
A cidade já não era somente descrita por estrangeiros. Ela começava a cantar a própria história.
Henrique Antão de Vasconcellos: memória, literatura e os crimes da antiga Macaé
Um dos personagens essenciais dessa história nasceu em Macaé em 11 de outubro de 1841. Seu nome era Henrique Antão de Vasconcellos. Formado em Direito pela Universidade de Coimbra, Antão desenvolveu uma escrita marcada pela memória, pela observação histórica e por evidente preocupação literária.
Em 1905, publicou Memórias do Mata-Carocha: Memórias de um Estudante Brasileiro em Coimbra (1858-1865). Estudos contemporâneos sobre sua obra destacam justamente a dimensão estética presente em sua escrita memorialística. Sua ligação mais profunda com a história regional, porém, está em Evocações: Crimes Célebres em Macahé. O livro trata de três episódios que atravessaram a memória da antiga Macaé: Chico do Padre, Carukango e Motta-Coqueiro.
A edição conhecida foi publicada em 1911. A atual coleção Memórias Fluminenses, do IFFluminense, registra a obra original em 1895. Antão de Vasconcellos ocupa, assim, uma posição singular. É um macaense do século XIX que transformou acontecimentos da própria região em narrativa escrita e deixou uma fonte que continua sendo discutida, contestada e estudada por historiadores do século XXI.
Figueiredo Pimentel: de Macaé para a literatura brasileira
Se procurarmos o primeiro grande nome nascido em Macaé a alcançar projeção nacional no romance, encontraremos Alberto Figueiredo Pimentel. Nascido em 1869, Figueiredo Pimentel construiu uma extensa trajetória como jornalista, cronista, contista, poeta, romancista, autor teatral e escritor para crianças.
Em 1893, lançou O Aborto. O romance naturalista provocou escândalo na sociedade da época, foi amplamente debatido pela imprensa e obteve expressiva circulação. Pesquisas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro mostram que Pimentel figurava entre os escritores e jornalistas mais produtivos de sua geração. Mas uma das maiores contribuições do escritor macaense viria no ano seguinte.
Em 1894, foi publicado Contos da Carochinha. A importância da obra é tamanha que estudos acadêmicos a colocam entre os marcos inaugurais da literatura infantil brasileira e da formação de uma literatura dirigida especificamente às crianças do país. Um escritor nascido em Macaé estava, portanto, participando diretamente da construção da própria história da literatura brasileira.
Figueiredo Pimentel pertence ao Brasil. Mas Macaé é a cidade de seu nascimento. E esse vínculo integra de forma definitiva a memória literária macaense.
Cezar Mello e os saraus de uma cidade que pensava
A literatura também se constrói nos encontros. No início do século XX, uma das figuras fundamentais para a vida cultural da cidade foi Cezar José de Souza Mello, nascido em Macaé em 23 de abril de 1876. Comerciante e jornalista, Cezar registrava em seu diário assuntos relacionados à sociedade, à política, à economia e à cultura macaenses. Também escrevia crônicas para o jornal de seu pai, Antônio José de Souza Mello.
Em 1911, a família adquiriu o imóvel que hoje conhecemos como Solar dos Mellos. A casa se tornaria ponto de encontro de intelectuais. Ali aconteceram reuniões, conversas, debates, festas e saraus. A memória do Solar registra a presença de personalidades como Godofredo Tinoco e Antônio Alvarez Parada. Por suas portas circulavam ideias.

Décadas mais tarde, a antiga residência se transformaria no Museu da Cidade de Macaé e em um dos principais guardiões da documentação histórica municipal.

As paredes que receberam intelectuais passaram a preservar os vestígios de sua existência.
Godofredo Tinoco: Macaé entre literatura, história e investigação
Godofredo Nascentes Tinoco nasceu em Macaé em 15 de agosto de 1897. Ainda criança, seguiu para Campos dos Goytacazes, cidade na qual construiu parte considerável de sua vida intelectual. Foi um dos fundadores da Academia Campista de Letras e tornou-se seu segundo presidente. Atuou também no jornalismo, na educação, no teatro, no Direito e na política.
Macaé, entretanto, nunca desapareceu de sua produção. Em 1962, publicou Simplesmente Macaé, utilizando documentação histórica para construir uma narrativa cronológica da evolução social do município. Também investigou um dos processos jurídicos mais célebres da história regional. Seu livro sobre o assunto recebeu o título Mota Coqueiro: A Grande Incógnita, com terceira edição registrada em 1966.
A distinção é importante. A Fera de Macabu, obra que décadas depois também se tornaria referência sobre Motta Coqueiro, pertence ao jornalista Carlos Marchi, e não a Godofredo Tinoco. Tinoco representa a ligação entre a intelectualidade macaense e um cenário cultural fluminense mais amplo.
Tonito: uma cidade transformada em memória
No século XX, poucos nomes se confundem tanto com a memória de Macaé quanto Antônio Alvarez Parada. Tonito nasceu em 27 de dezembro de 1925. Professor, pesquisador, escritor, cronista, jornalista e cuidador de acervos, dedicou grande parte de sua vida a reunir documentos, preservar histórias e compreender a cidade.
Em 1958, publicou Coisas e Gente da Velha Macaé. Depois vieram obras como ABC de Macaé, de 1963; Histórias da Velha Macaé, de 1980; Imagem da Macaé Antiga, de 1982; e Meu Nome, Crianças, é Macaé!, de 1983. A dimensão de sua produção pode ser percebida também nas cerca de mil crônicas reunidas posteriormente em dois volumes de Histórias Curtas e Antigas de Macaé.
Tonito não foi o primeiro homem a escrever sobre Macaé. Também não foi o primeiro escritor nascido na cidade. Sua grandeza encontra-se em outro lugar. Ele dedicou uma vida a transformar a memória dispersa da cidade em acervo, pesquisa, crônica, livro e patrimônio. O Anuário de Macaé o reconhece como pioneiro de uma historiografia dedicada especificamente ao município.
Além dos livros, Tonito escreveu a letra do Hino de Macaé, musicada por Lucas Vieira. E esteve no nascimento da instituição que daria forma acadêmica a essa longa tradição.
1963: nasce a Academia Macaense de Letras
Em 1963, Macaé finalmente reuniu suas letras sob uma instituição criada para preservá-las, cultivá-las e fazê-las avançar. Nascia a Academia Macaense de Letras na icônica Lyra dos Conspiradores. Antônio Alvarez Parada ocupou posição fundamental nesse movimento e é identificado pelas fontes municipais como fundador e um dos responsáveis pela criação da Academia.

A Academia, contudo, não inaugurava a literatura em Macaé. Ela recebia uma herança. Uma herança iniciada nos antigos relatos de viajantes, ampliada pela imprensa oitocentista, enriquecida por poetas e cronistas, levada ao cenário nacional por Figueiredo Pimentel, transformada em memória por Antão de Vasconcellos, Cezar Mello, Godofredo Tinoco, Tonito e tantos outros homens e mulheres que escreveram antes que seus nomes pudessem ser reunidos sob o mesmo teto acadêmico.
Afinal, quem foi o primeiro escritor de Macaé?
Talvez esta seja a pergunta que nos conduziu ao erro durante muito tempo. Porque existe mais de uma resposta. Se a pergunta for quem deixou o mais antigo relato escrito conhecido sobre o território, a documentação atualmente localizada aponta para André Thevet, em 1557. Se procurarmos um dos primeiros autores nascidos em Macaé a registrar literariamente a memória regional, encontramos Henrique Antão de Vasconcellos, nascido em 1841.
Se quisermos identificar o primeiro grande romancista macaense de projeção nacional documentada, o nome é Figueiredo Pimentel. Se a pergunta tratar da sistematização e preservação da memória histórica da cidade durante o século XX, Antônio Alvarez Parada, o Tonito, ocupa lugar incontornável.
"A literatura de uma cidade raramente nasce em uma única data.
Ela nasce quando alguém observa.
Cresce quando alguém registra.
Permanece quando alguém preserva.
Macaé passou por todas essas etapas.
Hoje, a Academia Macaense de Letras continua escrevendo o capítulo seguinte."
A importância da Academia Macaense de Letras
A Academia Macaense de Letras é mais do que uma instituição; ela é um símbolo da cultura e da literatura de Macaé. Através de suas atividades, promove eventos, debates e publicações que enriquecem o cenário literário local. Além disso, a Academia busca incentivar novos escritores e preservar a memória de autores que contribuíram para a formação da identidade cultural da cidade.
Através de suas ações, a Academia se torna um elo entre o passado e o futuro, unindo vozes antigas a novas expressões literárias. Esse trabalho é essencial para que a literatura macaense continue a florescer e a se expandir, alcançando novos horizontes e leitores.
Nota historiográfica e fontes
Nota historiográfica: Esta matéria foi elaborada a partir de fontes oficiais, acadêmicas e bibliográficas disponíveis até agosto de 2026. Algumas classificações de pioneirismo constituem interpretações historiográficas baseadas nos documentos atualmente conhecidos e poderão ser revistas diante da descoberta de novas fontes.
Fontes consultadas:
Prefeitura Municipal de Macaé — Cronologia de Macaé: dos primórdios até 1960
Registro histórico utilizado para André Thevet, Jean de Léry e a formação histórica do município. Acessar a Cronologia de Macaé
Prefeitura Municipal de Macaé — Anuário de Macaé, Volume 1
Fonte histórica municipal utilizada para acontecimentos, personagens e referências literárias locais. Acessar o Anuário de Macaé em PDF
Editora Essentia / IFFluminense — Memórias Fluminenses
Acervo acadêmico que inclui Evocações: Crimes Célebres em Macahé, de Henrique Antão de Vasconcellos. Acessar a coleção Memórias Fluminenses
IFFluminense — Evocações: Crimes Célebres em Macaé
Edição crítica utilizada para dados biográficos e análise da obra de Henrique Antão de Vasconcellos. Acessar a edição digital de Evocações
UERJ — Figueiredo Pimentel e o romance O Aborto (1893)
Estudo acadêmico de Renata Ferreira Vieira sobre a trajetória naturalista de Figueiredo Pimentel. Acessar o estudo da UERJ
USP — Literatura infantil brasileira do século XIX e Figueiredo Pimentel
Pesquisa acadêmica sobre Contos da Carochinha e o papel de Figueiredo Pimentel na literatura infantil brasileira. Acessar o estudo na USP
Academia Campista de Letras — Godofredo Nascentes Tinoco
Biografia institucional com informações sobre nascimento, produção intelectual e participação acadêmica de Godofredo Tinoco. Acessar a biografia de Godofredo Tinoco
Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos / UFSC — José Carneiro da Silva
Dados biográficos e bibliográficos do Visconde de Araruama, incluindo suas obras de 1819 e 1836. Acessar o acervo da UFSC
Consulta recomendada: Para pesquisas futuras, também devem ser considerados os acervos do Solar dos Mellos, da Academia Macaense de Letras, da imprensa histórica macaense e documentos primários ainda não digitalizados.
Academia Macaense de Letras
"Preservando a memória. Cultivando as letras. Escrevendo o futuro de Macaé."
Pesquisa e matéria: Cleber de Moraes.






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